Resumo
Gamboa Subterrânea nasce a partir de um estudo sobre as sucessivas sobreposições de projetos urbanísticos na Zona Portuária do Rio de Janeiro, um território marcado por camadas profundas de intervenção, especulação e violência urbanística. É nesse processo de investigar o passado e o presente da Gamboa que encontro, através das escavações de Tania Andrade Lima na Sacadura Cabral, a descoberta das pedras trazidas e escondidas por africanos escravizados há mais de duzentos anos. Essa presença material, resistente e silenciosa no subsolo transforma completamente o rumo da pesquisa. A partir desse encontro, passo a analisar a história da região por meio de uma metodologia cartográfica, reconstruindo as camadas urbanas e culturais que moldaram a Pequena África: desde a transferência do desembarque de escravizados para o Valongo em 1779, passando pela urbanização violenta do porto, pela resistência negra expressa no samba e nas manifestações culturais, até chegar às grandes obras contemporâneas, como o Porto Maravilha, Reviver Centro, e agora os novos projetos como Praça Onze Maravilha e a Biblioteca do Saber. É nessa sobreposição que percebo um padrão: enquanto discursos de modernização justificam expulsões e apagamentos, surgem também projetos que buscam afirmar a memória afro-brasileira. Esses gestos menores e mais atentos à ancestralidade me inspiram a pensar outro tipo de intervenção: um urbanismo que não reproduza a lógica da espetacularização, mas que trabalhe com o que já está vivo no território, especialmente no subterrâneo da Gamboa. Assim, proponho um ensaio projetual que parte da própria descoberta das pedras: escavo simbolicamente o trapiche que as escondeu, recupero esse solo histórico e crio uma “fenda” que conecta dois mundos: a Sacadura Cabral, com seu fluxo contemporâneo e asfaltado, e o topo da Pedra do Sal, espaço de resistência comunitária. No lote escolhido, proponho a criação de uma Casa de Angola, inspirada na Casa de Benin de Lina Bo Bardi, acolhendo imigrantes angolanos e artistas, e estabelecendo uma ponte entre as presenças africanas de ontem e de hoje. O resultado é uma colagem-projeto que busca espacializar essas camadas históricas e simbólicas, trazendo à superfície aquilo que por séculos permaneceu enterrado. Ao conectar subterrâneo e superfície, passado e presente, gesto e território, proponho uma forma de pensar a cidade que se opõe às megaoperações: um urbanismo delicado que reconhece a ancestralidade da Pequena África, fortalece a presença negra no território e imagina futuros possíveis a partir das memórias que resistem no solo da Gamboa.
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