Resumo
O trabalho analisa as disputas raciais em torno da moradia no centro do Rio de Janeiro, a partir do conceito de “morar negro”. O objetivo é compreender como as práticas habitacionais da população negra atravessam diferentes temporalidades, articulando passado, presente e futuro. A pesquisa utiliza revisão bibliográfica, análise documental e de levantamentos de dados recentes para evidenciar permanências e transformações. No passado, identifica-se a construção de modos de morar coletivos durante o período escravista e pós-abolição, em espaços como cortiços, Zungus e a Pequena África, que revelam a centralidade da coletividade e da resistência. No presente, observa-se a continuidade dessas práticas em ocupações urbanas e cortiços, que funcionam como territórios de permanência diante da exclusão habitacional e da especulação imobiliária. Já no futuro, a investigação aponta para a apropriação simbólica da cultura afro-diaspórica por novos empreendimentos residenciais, que utilizam referências à memória negra como estratégia de valorização mercadológica, ao mesmo tempo em que negam a presença real dessa população nos territórios. Entende-se, portanto, que o “morar negro” constitui não apenas uma resposta às desigualdades históricas, mas também uma afirmação política do direito à cidade, sintetizada na ideia de “memória à venda, moradia negada”, que traduz as disputas raciais que moldam o centro do Rio de Janeiro.
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